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Ribeirão Preto vira polo de inovação no interior de SP

por Rodolfo Tiengo

Ribeirão Preto concentra 300 empresas ligadas a setores como biotecnologia, TI e equipamentos médicos. Engenheiro largou carreira estável para criar exame móvel de retina.

equipamento que faz exames de retina à distância ou um aparelho que entende o comportamento dos consumidores através de seus telefones celulares não saíram de dentro de grandes empresas, mas de empreendimentos que ainda dão seus primeiros passos em Ribeirão Preto (SP).

Conhecido por sua vocação para o agronegócio, já chamado de "Terra do Café" e "Capital do Chope", o município de quase 700 mil habitantes do interior de São Paulo transformou-se nos últimos anos no que especialistas chamam de "ecossistema de inovação" para pessoas que almejam criar negócios voltados para as novas tecnologias. Empreendedores em sua maioria jovens, que trocam carreiras profissionais sólidas e bons salários em tempos de crise por uma rotina de muito trabalho e sacrifícios e um futuro ainda mais incerto. Segundo levantamento da Fundação Cabral, um quarto das empresas do setor não sobrevive ao primeiro ano.

"O empreendedor está em todo lugar. O empreendedor de uma startup é sacrifício 24 horas por dia", diz Fernando Machado, de 32 anos, fundador da FishTank, tecnologia que dá seus primeiros passos na cidade e foi criada para medir o comportamento das pessoas através das emissões de wifi de seus telefones.

Esta é uma das 300 empresas de um setor que conta atualmente com 22 ambientes de inovação, dentre os quais incubadoras, uma aceleradora e coworkings [escritórios compartilhados por diferentes empresários], de acordo com o Movimento Empreende Ribeirão (Mover), grupo sem fins lucrativos que articula ações em prol de novos negócios na região.

'Glossário' da inovação

  • incubadora: 'hospedeira' de novos projetos, que os respalda com estrutura básica e orientações para a criação de uma empresa

  • aceleradora: assim como a incubadora, dá suporte a novos projetos, mas é mais agressiva em relação a investimentos, com o intuito de aumentar a capacidade de expansão da empresa

  • startup: modelo de negócio inovador que pode ser ampliado

  • capital semente (seed capital): primeira verba investida por amigos , familiares e investidores profissionais em um novo projeto de inovação

  • investidor anjo: depois do capital semente, é o primeiro grande investimento de uma startup; Antecede o capital de risco (venture capital), já na casa dos milhões, que é o penúltimo estágio antes de a empresa se tornar de capital aberto, com ações na bolsa

  • inovação: desenvolvimento de novos produtos, processos de produção e de gestão, geralmente ligados a práticas sustentáveis

  • mentoria: atividade de orientação obtida por empresários incubados ou acelerados; consiste de aulas e palestras sobre temas voltados ao empreendedorismo

  • core business: a essência de um negócio que se pretende apresentar ao mercado; o ponto forte que a empresa deve explorar

Um ambiente que levou a cidade a subir duas posições no ranking das cidades mais empreendedoras do país da Endeavor Brasil, instituição que apoia empreendimentos de inovação.

Em 2016, o município ficou em décimo lugar, mediante uma avaliação de fatores como acesso a capital, mercado, inovação, infraestrutura, capital humano e cultura empreendedora.

"Inovação é quando você tem uma melhoria substancial que pode acontecer em um produto, em um processo de produção ou também na gestão, ou seja, no modelo de negócios da empresa", explica Eduardo Cicconi, um dos fundadores do Mover e gerente do Supera, o Parque de Tecnologia e Inovação de Ribeirão Preto, local inaugurado há mais de dois anos que concentra a maior parte das iniciativas inovadoras do município.

Localizado na zona oeste da cidade, dentro de uma área de 378 mil metros quadrados concedida pela Universidade de São Paulo (USP) e aberto com recursos estaduais, municipais e da universidade - um investimento inicial de R$ 15 milhões -, o Supera é considerado o principal polo de inovação em saúde do país e foi apontado em 2015 como a melhor incubadora do Brasil.

Por definição, um parque tecnológico parte de duas condições básicas: abrigar projetos de inovação e estar ligado a um centro de pesquisa, explica Cicconi.

"O conceito surge na década de 1960 nos Estados Unidos, com a criação quase que ao mesmo tempo em Stanford e no MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts]. Alguns professores começaram a incentivar os alunos a instalar empresas que eles tinham ideias no entorno da universidade. Daí surgem o Google, a Apple. O conceito de parque tecnológico é um conceito de transferência de tecnologia entre universidade e empresas em que os alunos peguem e criem suas empresas e se instalem próximos à universidade para ter essa interação", afirma.

No Supera estão cerca de 60 startups, modelos de negócio em fase inicial, mas com potencial de serem aplicados em larga escala e que já movimentam recursos próprios. Em 2015, no último levantamento feito pela incubadora, as empresas faturaram, juntas, quase R$ 10 milhões.

Projetos em sua maioria ligados à inovação em biotecnologia - 43% das empresas lá instaladas desenvolvem recursos para esse setor -, mas também voltados para a tecnologia da informação (34%) e equipamentos médico hospitalares e odontológicos (23%).

As iniciativas muitas vezes nasceram do zero ou apenas de uma inspiração, mas ganham formato aos poucos dentro da estrutura oferecida pelo parque. Em salas informatizadas compartilhadas, os novos negócios são escolhidos por duas seletivas anuais e se desenvolvem ao mesmo tempo em que seus idealizadores recebem acompanhamento constante e têm acesso a mentorias, aulas e orientações sobre empreendedorismo, com dicas sobre definição de mercados e obtenção de investimentos.

Sete anos é o tempo máximo que uma empresa tem para começar a andar com as próprias pernas ou para fechar as portas. Prazo necessário, segundo o gerente do Supera, sobretudo para as inovações em saúde.

"Uma empresa que está pesquisando o desenvolvimento de uma vacina precisa fazer teste de laboratório, depois teste em animal de pequeno e médio porte, depois em seres humanos para depois lançar o produto no mercado. Então a gente tem desde aquelas empresas com seis meses até aquelas com mais de sete anos."

Exame de retina à distância
Flávio Pascoal Vieira, de 31 anos, trocou a carreira de engenheiro de desenvolvimento e um salário de R$ 10 mil por mês em São Carlos (SP) pela aposta em seu projeto de inovação: uma tecnologia capaz de fazer exames oftalmológicos à distância, sem a presença do médico.

Vieira é um dos três sócios da Phelcom, que entrou em processo de incubação no Supera Parque em junho de 2016. Desde então, já recebeu recursos do Estado e chamou a atenção da Samsung, que premiou a empresa com um aporte de R$ 200 mil por meio de um programa de incentivo à economia criativa.

O sistema começou a ser concebido a partir da constatação de uma fragilidade no Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo Vieira, o grupo avaliou que, face o alto custo dos equipamentos oftalmológicos, a maior parte dos municípios não dispõe de centros próprios para diagnóstico. Para as primeiras pesquisas, os fundadores investiram um "capital semente" - ou seed capital, como é definido o primeiro aporte de uma empresa na linguagem adotada pelos novos empreendedores - de R$ 30 mil em economias.

"A gente identificou uma demanda de centenas de milhares de pessoas que precisam se deslocar para fazer exames bem simples. Dos mais de cinco mil municípios do Brasil, 4,7 mil não têm serviço de oftalmologia, segundo dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia. O custo desses equipamentos acaba fazendo com que oftalmologistas se concentrem em grandes centros urbanos, porque a operação só faz sentido em um certo volume", afirma Vieira.

Foi assim que Vieira e seus sócios imaginaram uma tecnologia que, a princípio, conseguisse proporcionar exames mais simples, como o da retina, principalmente a pacientes distantes dos grandes centros de referência em saúde. Diagnósticos que podem prevenir doenças como retinopatia diabética, glaucoma, degeneração macular, descolamento de retina e alguns tipo de câncer no olho.

Com um equipamento acoplável ao telefone celular e um aplicativo, a imagem é captada da retina pela câmera do aparelho móvel e enviada para um sistema de armazenamento online, de onde um médico pode fazer as análises necessárias sobre o paciente.

A tecnologia portátil, apresentada no prêmio Falling Walls, que todo ano reúne iniciativas inovadoras na Alemanha, ainda está em testes, mas pode chegar ao mercado por aproximadamente R$ 20 mil, valor cinco vezes inferior a um equipamento convencional.

"Alguns equipamentos vão continuar precisando existir, porque são superespecializados em exame de retina, custam na faixa de R$ 300 mil e realizam exames para profissionais que são retinólogos. Não queremos pegar esse mercado. Esse campo não é o que a gente almeja substituir. Com nosso equipamento o que propomos é levar condições de exame em uma diversidade de regiões em que não se fazia esse exame, onde as pessoas iam ficando cegas", diz Vieira.

Um ano depois de entrar de cabeça em seu projeto, trabalhando muito mais do que no antigo emprego - fora as dez horas no escritório tem a dedicação extra em casa - e vivendo das próprias economias - os recursos obtidos por terceiros têm sido direcionados ao desenvolvimento do produto - , Vieira sabe do risco de o negócio não prosperar, mas está otimista.

"Quando eu trabalhava para outras pessoas o tipo de problema que eu tinha que resolver estava muito definido. Surgia um problema técnico eu resolvia. Agora que a gente trabalha na startup a amplitude dos problemas aumentou e o balanceamento entre o tempo dedicado às diversas atividades mudou totalmente. A gente precisa atender a todo tipo de demanda, dar atenção pra tudo que a gente escuta, porque isso sempre tem algum valor."

Sistema analisa hábitos do consumidor
Da mesma faixa etária e com a mesma disposição para enfrentar riscos, o publicitário Fernando Machado, de 32 anos, também largou tudo que tinha no Rio de Janeiro para começar uma vida nova em Ribeirão Preto.

O ambiente de trabalho deixou de ser sua antiga agência de publicidade e passou a ser uma das salas da incubadora do Supera Parque, de onde desenvolve, com um sócio de São Paulo, um sistema que analisa os hábitos dos consumidores através da emissão de sinais wireless de seus aparelhos móveis.

A vocação para o comércio e para os serviços de Ribeirão, que dispõe de quatro shoppings, motivou as primeiras experiências com o FishTank [que significa aquário], tecnologia que também dá nome à empresa.

Com um aparelho de sete centímetros de largura por sete de altura, próximo do tamanho de um roteador, o dono de uma loja, por exemplo, consegue saber quantas pessoas passaram em frente à sua loja, o número de aparições de um mesmo consumidor, o tempo de permanência e a forma como os clientes se locomovem dentro do estabelecimento.

Diferente da Phelcom, a FishTank começou a ser atendida por uma aceleradora - a Sevna Seed, também localizada no Parque Tecnológico de Ribeirão Preto -, para depois ser escolhida para ser incubada pelo Supera, onde paga um aluguel mensal de R$ 340 para contar com um escritório próprio.

De fevereiro a julho do ano passado, a versão beta do produto foi desenvolvida e colocada no mercado para os primeiros clientes.

Uma rede de perfumarias, um shopping, além de lojas de roupa e sorveterias estão entre os primeiros adeptos da tecnologia. Além disso, o sistema já foi usado para calcular o público de um festival de música da cidade, afirma Machado.

O empreendedor não revela cifras, mas confirma que a empresa já tem um valor de mercado na casa dos milhões e conta com seu primeiro investidor anjo com uma cifra que ultrapassa os três dígitos. Além disso, a empresa conta com benefícios como um crédito de R$ 100 mil em tecnologias de inteligência artificial da Amazon.

Apesar disso, Machado conta que chegou a desembolsar R$ 15 mil somente com o desenvolvimento do protótipo, mantém uma vida simples e trabalha até de garçom para bancar as despesas pessoais mais básicas. "O dinheiro que o investidor dá para a empresa é para o crescimento do negócio", diz.

Ele projeta que, a partir de janeiro, sua empresa começará a faturar com o sistema, entregue aos clientes por meio de uma assinatura mensal para o aluguel dos equipamentos - hoje custa na base dos R$ 120.

Cicloturismo social
A publicitária Reneide Campelo, de 38 anos, não faz parte dos incubados do Supera Parque, mas não foge à regra dos empreendedores do setor: largou a estabilidade do emprego em uma grande editora quatro anos atrás para dar seus primeiros passos com a plataforma "Be Your Trip", uma rede que integra cicloturistas com informações e dicas de percurso.

Inspirada por duas viagens de bicicleta pelo Caminho dos Anjos - roteiro circular que começa e termina em Passa Quatro (MG) - e pelo Caminho da Fé - trajeto que passa por cidades do interior de São Paulo e Sul de Minas rumo a Aparecida (SP) -, ela voltou decidida a criar uma tecnologia que conjugasse dados úteis a quem gosta de se aventurar.

"Eu tinha um bom salário, eu tinha o que o mercado considera uma estabilidade interessante, com cargo legal, estava tranquila com relação à empresa, era coordenadora de marketing e tinha perspectivas dentro da empresa. Mas quando tem um chamado interno para alguma construção diferente é inevitável", afirma a empreendedora.

Antes de concretizar sua ideia, Reneide dedicou meses com estudos e participação em cursos e eventos sobre empreendedorismo e inovação, período em que conheceu os integrantes do Supera e acabou ajudando a fundar o Movimento Empreende Ribeirão (Mover).

Foi em julho de 2015 que a proposta da plataforma, ou seja, seu core business, realmente começou a ganhar forma. Trabalho que demandou contato com agências de viagens e viajantes, além de uma seleção de dados úteis para integrar o sistema.

"Começou com uma curadoria de conteúdo. Durante um ano fui entrando em contato com idealizadores de roteiros, eles foram me passando informações. Esse trabalho ninguém se propôs a fazer", conta.

Sem escritório fixo, hoje ela comanda seu negócio de seu laptop, de qualquer lugar, e conta com um estagiário da Espanha, por meio de uma parceria com a USP. Ainda sem retorno financeiro e trabalhando muito mais do que no emprego anterior, banca suas despesas pessoais com reservas que fez ao longo dos últimos anos e frilas de consultoria para startups, mas garante que os riscos valem a pena.

"Estou construindo um caminho para que no máximo em um ano e meio ou dois eu já tenha essa nova rotina 100% focada na startup."

Escolhida a expor seu trabalho durante a última Campus Party, Reneide diz ter obtido as primeiras propostas de investidores, mas afirma que o negócio precisa superar, primeiro, uma etapa de validação, ou seja, de viabilidade prática no mercado, que deve se estender por mais seis meses.

Com o sistema disponível somente em desktop, sem versão mobile, a Be Your Trip quer expandir sua equipe, para alçar voos maiores. Além das informações gratuitas, o objetivo é que a plataforma seja um filtro eficiente de busca de viagens de bicicleta e sirva como referência de análises para agências de turismo

Para isso, Reneide diz que precisa contar com um CTO, uma espécie de CEO responsável pela pesquisa e desenvolvimento em uma empresa de tecnologia.

"De uma hora pra outra a situação mais inusitada foi deixar de ter rotina, tive que construir uma rotina, tudo isso me empoderou. Nunca estive tão forte e nunca aprendi tanta coisa em tão pouco tempo assim. Esses desafios fazem sentido pra mim."