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Matéria Capa 26

 


Indústria: retomada é bem-vinda

Já não se discute mais se a indústria nacional encontra-se num processo de acelerado encolhimento. O setor que deveria ser o mais dinâmico da economia – e propiciar as melhores oportunidades de trabalho – perde cada vez mais participação no PIB, relevância na pauta exportadora local e peso na geração de empregos. As manufaturas brasileiras já regrediram à década de 1950 e a balança comercial da indústria saiu do azul para um mergulho num profundo déficit. Apenas uma ação coordenada e ousada seria capaz de ajudar a ressuscitar o setor, mas as tentativas do governo petista têm sido limitadas, erráticas e insuficientes.

A crise vivida pela indústria brasileira assumiu o centro das atenções nas últimas semanas, depois que os resultados do PIB de 2011 comprovaram quão anêmico encontra-se o setor. Há evidências de sobra de que o segmento tradicionalmente mais dinâmico da economia e que gera os melhores empregos caminha a passos largos para um prematuro encolhimento. O governo tem tentado agir, mas não consegue tomar medidas que transcendam o curto prazo, que não sejam erráticas e pontuais ou que tenham alguma capacidade de alçar o país a voos mais altos.

Até algum tempo atrás, ainda se discutia se a indústria nacional estava, de fato, perdendo espaço na economia. A esta altura, o debate já se mostra superado: todos os indicadores tradicionalmente usados para aferir a chamada “desindustrialização” apontam na mesma direção. Isto é, o setor industrial perde cada vez mais participação no PIB, relevância na pauta exportadora brasileira e peso na geração de empregos. Com isso, também deixa de funcionar como indutor importante da modernização do segmento de serviços, para o qual migram progressivamente as economias mais maduras.

Em 2011, a participação da indústria na economia brasileira regrediu a níveis de 50 anos atrás. O setor de transformação passou a responder por 14,6% do PIB, algo só visto na época do governo Juscelino Kubitschek. Em meados dos anos 80, esta fatia era simplesmente o dobro da atual e, no início da era petista, superava 19%. Nota-se, sem dificuldade, que a trilha perseguida pelas gestões Lula e Dilma Rousseff não está conduzindo o setor manufatureiro a bom destino.

O principal fator a atravancar a indústria brasileira são as más condições de competitividade existentes hoje no país. As fábricas nacionais até conseguiram avançar na época das vacas gordas, mas estão penando agora que os ventos da economia mundial viraram. Na pós-crise de 2008, os preços globais despencaram e indústrias do mundo inteiro correram para despejar seus produtos baratos em mercados onde remanesce algum dinamismo, como ainda é o caso do brasileiro.

No rastro deste tsunami, o mercado nacional viu-se invadido por produtos importados: em 2011, cerca de um quinto dos bens industriais comercializados no país veio do exterior. No extremo oposto, o peso dos produtos industriais na pauta exportadora é cadente. Entre 2005 e 2011, diminuiu de 55% para 36% do total. Ao mesmo tempo, o país vê-se transformado cada dia mais em vendedor de matérias-primas, destinadas, principalmente, à China – numa extemporânea e indesejável reedição do pacto colonial em que só a metrópole muda.

Impressiona, especialmente, a reversão do comportamento da balança comercial da indústria nos últimos anos. O resultado passou de um superávit de US$ 8,5 bilhões em 2005 para um déficit de US$ 92,5 bilhões no ano passado.

São indicativos contundentes de que o espaço das fábricas brasileiras no mercado vem encurtando tanto dentro do país, como também lá fora. Com a crise, para sobreviver empresários buscaram fornecedores estrangeiros, instalaram plantas no exterior e abandonaram mercados externos arduamente conquistados ao longo de anos, num lastimável retrocesso.

Uma constatação se faz necessária: é difícil competir quando se tem custos em franca ascensão, condições precárias de infraestrutura, crédito proibitivo – exceto para os ungidos com acesso a linhas privilegiadas do BNDES – e tributação excessiva, como ocorre hoje no Brasil. Em suma, tornamo-nos um país caro demais para se produzir. E não espanta que a taxa de investimento continue tão baixa aqui, com a particular freada da indústria.

Alguns exemplos permitem aferir a escalada dos custos internos. Desde 2005, a folha de salários na indústria subiu 25% e a energia elétrica, 28% – ambos já descontados a inflação do período. O câmbio valorizado e o dólar barato tornou a equação ainda menos favorável aos produtores nacionais: em dólares, a mão de obra ficou 57% mais cara nos últimos seis anos e a energia, impensáveis 86%.

O país tem dificuldade de inovar e elevar a sua produtividade. Em 2011 houve queda de 0,2% do indicador na indústria, o segundo pior desempenho em dez anos. Enquanto um trabalhador brasileiro produz o equivalente a US$ 17,9 mil por ano, um americano rende US$ 84,7 mil, conforme levantamento feito na Universidade da Pensilvânia com dados de 2008 – a situação atual tende a ser um pouco pior.

A indústria foi o setor da economia com pior desempenho no ano passado:
Cresceu, como um todo, apenas 1,6%, enquanto o segmento de transformação ficou estacionado, com expansão de mero 0,1%. A situação continua desfavorável: nos dois primeiros meses deste ano, a indústria já murchou 3,4% em comparação com o mesmo período de 2011. Em 2012 o nível de produção industrial é o mesmo do início de 2008 e, nesse ínterim, as vendas do varejo expandiram-se algo como 35%. Isso significa que o espaço criado pelo maior consumo da população brasileira foi totalmente ocupado por bens vindos do exterior.

Infelizmente, as alternativas oferecidas pelo governo Dilma não têm surtido o efeito necessário. Na realidade, desde a eclosão da crise de 2008 têm sido recorrentes pacotes de socorro à indústria, sem que se perceba qualquer sucesso aparente. Medidas de desoneração tributária são pulverizadas e beneficiam apenas setores com maior capacidade de mobilização e pressão.

Não se cogita desafogar o setor produtivo como um todo, embora a carga de impostos mantenha sua escalada de sucessivos recordes. Junto disso, mecanismos de incentivo à exportação, como o Reintegra, continuam sem beneficiar uma empresa sequer. E o aumento de crédito concentra-se nas linhas do BNDES, alimentadas por aportes nebulosos do Tesouro – ou seja, do dinheiro do contribuinte – sem o escrutínio da sociedade.

Em contrapartida, o que realmente interessa a quem trabalha e produz, isto é, uma agenda ampla de reformas estruturais, jamais foi cogitado pelo governo do PT. Não surpreende, portanto, que a indústria brasileira esteja soterrada em tamanha dificuldade e sem perspectivas favoráveis à vista.

O IBGE divulgou dados relativos à produção industrial brasileira nos primeiros quatro meses de 2013. No mês de abril último, de acordo com o instituto, a produção industrial avançou 1,8% frente ao mês imediatamente anterior, segundo resultado positivo consecutivo nesse tipo de comparação, acumulando ganho de 2,7% nesse período.

Na série sem ajuste sazonal, no confronto com igual mês do ano anterior, a indústria cresceu 8,4% em abril de 2013, taxa mais elevada nesse tipo de comparação desde agosto de 2010 (8,6%). Com isso, no índice para o fechamento do primeiro quadrimestre de 2013 (acumulado no ano), o setor industrial teve expansão de 1,6%, revertendo a queda de 1,1% assinalada nos quatro últimos meses do ano passado, ambas as comparações contra iguais períodos do ano anterior. A taxa anualizada, indicador acumulado em 12 meses, ao recuar 1,1% em abril de 2013.
No índice acumulado para o primeiro quadrimestre de 2013, frente à igual período do ano anterior, o setor industrial cresceu 1,6%, com 13 dos 27 ramos investigados apontando expansão na produção.

O ramo de veículos automotores (15,2%) exerceu a maior influência positiva, impulsionado pelo crescimento na produção de aproximadamente 75% dos produtos investigados. Houve influência da baixa base de comparação, já que esse setor recuou 18,5% no índice acumulado dos quatro primeiros meses de 2012, em virtude da concessão de férias coletivas em várias empresas do setor. Outras contribuições positivas vieram de refino de petróleo e produção de álcool (8,4%), outros equipamentos de transporte (8,6%), máquinas, aparelhos e materiais elétricos (8,4%), máquinas e equipamentos (2,7%) e borracha e plástico (5,2%).

Entre as categorias de uso, o perfil dos resultados para o primeiro quadrimestre de 2013 mostrou maior dinamismo para bens de capital (13,4%), impulsionado especialmente pela maior fabricação de equipamentos de transporte (27,4%). O setor produtor de bens de consumo duráveis (4,5%) também apontou taxa positiva nos quatro primeiros meses do ano, influenciado pela maior produção de automóveis (8,7%). Essas duas categorias de uso, além do aumento no ritmo da atividade industrial ao longo desse ano, também foram influenciadas pela baixa base de comparação, uma vez que, no período janeiro-abril de 2012, registraram quedas de 11,9% e de 10,1%, respectivamente.

O presidente da Confederação Nacional das Indústrias afirmou que a indústria pretende ampliar o nível de investimentos neste ano, alcançando um crescimento de 4% em relação ao ano passado.

Robson Braga destaca que a principal preocupação do setor atualmente é o aumento dos juros. “Isso representa a entrada excessiva de dólares no Brasil, o que fortalece o real frente à moeda americana e prejudica a competitividade das indústrias brasileiras”, comenta o presidente da CNI.

Na opinião de Braga, o país precisa passar por um processo de mudanças estruturais, o que envolve a desburocratização do sistema tributário, a modernização das relações de trabalho, investimentos e captação de mão de obra estrangeira especializada, especialmente para o setor de infraestrutura.

Vale destacar que o Brasil é hoje um dos grandes parceiros comerciais da Espanha, destacando-se como o mercado que mais recebe investimentos espanhóis, com um crescimento de mais de 8% no primeiro trimestre em comparação com o mesmo período de 2012. “Ao longo dos últimos anos as empresas espanholas investiram mais de R$ 170 bilhões no país, gerando mais de 300 mil empregos diretos e indiretos, além de atenderem a mais de 165 milhões de brasileiros em diferentes setores”, destacou o presidente da Cámara Española e da Telefônica Vivo, Antônio Carlos Valente.

Nos próximos três anos, as 20 maiores empresas espanholas pretendem investir R$ 48,7 bilhões no Brasil. Somente em infraestrutura, as maiores empresas do setor planejam investir R$ 17,8 bilhões, até 2016. A CNI tem apoiado a contratação de mão de obra qualificada estrangeira, de forma a impulsionar o desenvolvimento do país. Um dos argumentos utilizados aborda a relação deficitária existente entre a mão de obra qualificada brasileira e os altos índices de profissionais graduados e experientes desempregados na Espanha. Foi discutida a criação de um acordo bilateral para desburocratizar a vinda de profissionais espanhóis, especialmente para áreas como infraestrutura. Uma solução sugerida pela Cámara é a criação de vistos com validade vinculada ao tempo do projeto em que o profissional irá se dedicar.