Exper News - Matéria de Capa

Matéria Capa 08

 


Brasil de volta às exportações

por Beth Cataldo

Uma agenda agressiva para a retomada das exportações anima empresas brasileiras de diversos setores, em meio à crise econômica e política que não dá sinais de trégua. Pressionadas pela retração do mercado interno e favorecidas pela desvalorização do real, essas empresas tentam recuperar o terreno perdido no período em que se acomodaram à forte expansão do consumo no país e contaram com a incorporação de camadas amplas de novos consumidores. O câmbio sobrevalorizado completou o cenário dos últimos anos.

O consultor Welber Barral (foto), ex-secretário do Comércio Exterior, acompanha de perto essa movimentação e testemunha a ansiedade com que várias empresas brasileiras têm se lançado ao mercado externo para compensar a elevada taxa de ociosidade com que operam atualmente. A queda nas importações experimentada neste ano, e que explica boa parte dos resultados positivos colhidos na balança comercial, poderia abrir oportunidades para a produção nacional. Mas, na prática, o desaquecimento da economia brasileira obstrui esse caminho, o que reforça a alternativa da exportação.

Até meados do ano passado, as demandas que chegavam aos escritórios da Barral M Jorge Consultores Associados, a empresa de consultoria que ele mantém com o ex-ministro Miguel Jorge, se concentravam em ações de caráter defensivo, como processos antidumpings, elevação de tarifas e adoção de barreiras contra a entrada de produtos estrangeiros. Uma mudança radical aconteceu a partir daí, com o deslocamento da demanda dos clientes para as iniciativas que podem proporcionar acesso dos produtos brasileiros ao mercado internacional.

A disposição das empresas de tentar conquistar fatias mais expressivas dos consumidores no exterior passa pelo acompanhamento de negociações internacionais capazes de afetar produtos do país, pela pesquisa de mercado para a inserção de produtos brasileiros, entre outras ações. Inclui até mesmo a abertura de contenciosos na Organização Mundial do Comércio (OMC) – no caso, contra a Indonésia pela imposição de barreiras não-tarifárias à exportação de frango e carne do Brasil.

Dificuldades
Exportar não é fácil e nem acontece de um dia para o outro. A estimativa é que um projeto de exportação na área industrial chega a consumir, em média, cerca de dois anos e meio para alcançar a plenitude e produzir resultados concretos. Na área de serviços, esse período pode ser ainda mais extenso. No caso das commodities básicas exportadas em abundância pelo Brasil, como minério de ferro, soja e milho, “você não vende, é comprado”, ensina o ex-secretário. O diagnóstico é que não se agrega marca ou origem nesses produtos, que dependem do comportamento da demanda.

A oportunidade proporcionada pela desvalorização do real para aumentar os ganhos dos exportadores de commodities, no entanto, nem sempre se torna realidade. Os importadores costumam reagir com pedidos de abatimento de preços sempre que observam uma mudança cambial favorável aos exportadores. Nesse caso, se os produtores não têm suficiente poder de mercado para impor preços, acabam obrigados a reduzi-los. Esse processo está por trás da diminuição de preços de várias commodities exportadas pelo Brasil e outros países nos últimos meses, afetando as chances de aumento da lucratividade dos exportadores.

Quando a pauta de exportação é de produtos industriais, o Brasil tem condições hoje de oferecer preços mais baratos em função do novo patamar do câmbio, mas não conseguiu avançar o suficiente para agregar valor à sua produção e diferenciar-se no mercado. Apesar de figurar entre as dez maiores economias do mundo, o país não conta com grandes marcas nacionais no mercado externo, o que pressupõe aprimorar características de design e estruturar redes internacionais de distribuição, entre outras providências.

Há esforços nesse sentido, um cliente contratou centros de distribuição em Dubai, Cingapura e no Panamá para atender os importadores com mais presteza e eficiência. Outra empresa buscou instalações nas Ilhas Fiji, onde estão centralizados importantes centros regionais de distribuição. São exemplos mencionados por Barral para justificar a sua constatação de que “não existe mais mercado pequeno”. Ou seja, as empresas brasileiras estão em busca de oportunidades de exportação mesmo em mercados antes considerados pouco atraentes pelo menor porte.

Acordos comerciais
Em sentido contrário a esses esforços, pesa de forma negativa a ausência de acordos comerciais que estabeleçam condições mais propícias à presença dos produtos industriais brasileiros no mercado internacional. O Brasil conta com poucos acordos e enfrenta o avanço de seus competidores em articulações amplas, que desequilibram as condições de concorrência e deixam o país de fora de grandes mercados consumidores. Ou pelo menos diminuem suas chances de competir com sucesso.

É o caso do recente anúncio da Parceria Transpacífico, que reúne os Estados Unidos, o Japão e mais dez países. Entre eles, encontram-se a Malásia e a Indonésia, grandes concorrentes do Brasil na área de café solúvel. A perspectiva criada pela nova parceria é que esses países passam a usufruir de tarifa zero para vender café solúvel a grandes mercados, como o norte-americano, enquanto o Brasil paga uma taxa de 15% para comercializar sua produção. “Faz muita diferença”, aponta Barral, que busca saídas para compensar essa nova realidade.

Na exportação de serviços, o Brasil só consegue se destacar na área da construção civil, que enfrenta um quadro delicado em função das investigações da operação Lava Jato e do reposicionamento do BNDES no financiamento do setor. O superávit conquistado na construção civil nos últimos anos contou com recursos do banco estatal no processo de expansão nos mercados da América Latina e da África. O desafio agora é criar novos mecanismos de financiamento, pela expectativa de que o crédito do BNDES seja submetido a crivos muito mais burocráticos, além da própria redução dos recursos disponíveis.

Os contratos de exportação de serviços costumam ter efeitos multiplicadores importantes para a produção brasileira. No caso das negociações para obras da construção civil, estão embutidas exportações de vários itens produzidos no país, desde caminhões, capacetes e uniformes até a tecnologia empregada nos projetos. Em todas as demais áreas da exportação de serviços, que incluem transporte internacional, seguros e operações financeiras, o

Brasil aparece com déficit em sua relação com o exterior. Chama atenção o fato de que o forte segmento financeiro brasileiro nunca tenha se internacionalizado de forma expressiva.

Regras do jogo
As mudanças decididas pela equipe econômica do governo no processo de ajuste fiscal afetaram programas importantes, como o Reintegra, que compensa os exportadores com um percentual dos impostos recolhidos ao longo da cadeia de produção. O princípio a ser seguido é que não se deve pagar impostos para exportar, a exemplo do que fazem outros países competidores. O Proex, o programa gerido pelo BNDES para estimular as exportações, também foi atingido pelas restrições orçamentárias, com a redução dos recursos destinados à equalização das taxas de juros.

A estabilidade de regras é justamente uma das recomendações técnicas para a recuperação das exportações brasileiras. Afinal, as empresas elaboram projetos de exportação de médio e longo prazo a partir desses critérios. Apesar de todas as dificuldades, os resultados registrados neste ano na balança comercial superaram as previsões iniciais e já acumulam um superávit superior a US$ 12 bilhões de janeiro a outubro. Para o próximo ano, a estimativa inicial da consultoria é de um superávit da ordem de US$ 18 bilhões.

Agora que o ciclo de alta das commodities esgotou-se e não deve retornar antes de dez a quinze anos, Barral extrai lições que devem estar sempre presentes quando se discute comércio exterior no Brasil. A principal é que o caminho da exportação deve ser percorrido não apenas em períodos adversos, mas também na época de bonança. “O mercado externo funciona como um hedge natural”, afirma. Em outras palavras, a exportação protege as empresas das oscilações da demanda interna e proporciona receitas em moeda forte para bancar os insumos de produção. “Uma via de duas mãos”, conclui.