Exper News - Entrevista

Entrevistado


Luis Gonzaga Bertelli

Exper - Conte-nos um pouco da história e dos objetivos do CIEE?
Luiz Gonzaga Bertelli
- O CIEE foi fundado há 47 anos por empresários e educadores que perceberam, já naquela época, a defasagem existente entre o que era ensinado nas instituições de ensino e o que era exigido pelo mercado de trabalho – descompasso que era e ainda continua sendo o principal motivo da exclusão de jovens do mercado de trabalho. A solução veio por meio da promoção de programas de treinamento prático de estudantes em empresas e órgãos públicos, recurso este previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional sob o conceito de Estágio. O Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) surge, então, para promover o intercâmbio entre instituições de ensino, empresas e órgãos públicos que procuram novos talentos e estudantes interessados em conjugar a vivência prática da profissão com o aprendizado teórico.

Exper - Qual a sua opinião sobre a educação no Estado de São Paulo e especificamente na região do Alto Tietê?
Luiz Gonzaga Bertelli
- Avaliações (nacionais e internacionais) de desempenho dos alunos indicam que, atualmente, a educação no Estado de São Paulo, que abrange a região do Alto Tietê, bem como no restante do País, é de má qualidade, o que faz com que os jovens saiam das instituições de ensino com déficit de aprendizado.

Exper - Em sua opinião, o que é preciso fazer para mudar a cultura empresarial brasileira com relação à importância da aprendizagem profissional?
Luiz Gonzaga Bertelli
- Primeiro, mais divulgação e conscientização das organizações, e nisso, a imprensa tem um papel fundamental, noticiando os benefícios, para empresas e para estudantes, do estágio e da aprendizagem. O governo, em suas três esferas, também deveria ampliar incentivos para motivar as empresas a contratar estagiários e aprendizes, seja divulgando mais informações sobre a importância social dos dois programas – que em especial ajudam a manter milhares de jovens estudando, graças à remuneração concedida quando participam de um deles, que os ajuda a custear os estudos e até a reforçar o orçamento familiar, fato relevante em regiões de vulnerabilidade social – e sobre as Leis do Estágio (11.788/08) e da Aprendizagem (10.097/00).

Exper - Quais os benefícios para o empresariado com relação ao investimento na formação profissional dos jovens aprendizes como parte de sua política de RH?
Luiz Gonzaga Bertelli
- Verificamos que um dos principais benefícios que as organizações obtém ao investir em programas de aprendizagem é a possibilidade de descobrir e recrutar talentos aptos a ocupar, no futuro, cargos de gestão, treinando-os por um período de dois anos, tendo uma ótima relação de custo-benefício. O governo concede benefícios trabalhistas às corporações que aderem ao programa, e pela capacitação teórica, na mesma área que atuam nas empresas, que recebem das entidades certificadoras, como o CIEE, uma vez por semana. Isso se comprova pelo alto índice de efetivação de aprendizes, hoje na casa dos 70%.

Exper - A Expo CIEE 2011 foi o maior evento de capacitação e inclusão profissional do País. Quais as novidades para 2012?
Luiz Gonzaga Bertelli
- A Feira do Estudante – Expo CIEE visa reunir em um mesmo espaço estudantes em busca de novidades sobre programas de estágio, educação e carreira; empresas abertas à contratação de jovens talentos, e instituições de ensino com ofertas mais recentes de cursos e promoções. Buscamos, a cada edição, oferecer aos estudantes informações sobre inclusão profissional, além de ofertar cursos e palestras, que auxiliem o jovem estudante em sua formação. Portanto, abrange uma série de temas envolvidos com essa questão, como carreira, estágio, aprendizagem, educação, mercado de trabalho, arte e cultura, entre outros.
Desde sua primeira edição, a feira coloca estudantes dos ensinos médio, técnico e superior em contato com especialistas em carreira, com empresas que oferecem os mais modernos programas de estágio e com instituições de ensino que mostram as últimas novidades da área acadêmica, auxiliando-os na atualização de conhecimentos e na inserção no mercado de trabalho.
As novidades serão anunciadas em breve.

Exper - Desde o ano 2000, a Lei do Aprendiz estabelece que empresas de médio e grande porte devem ter jovens aprendizes entre seus colaboradores. Contudo, permanece o desafio de fazê-las cumprir. Quais seriam os entraves para que essa situação seja revertida?
Luiz Gonzaga Bertelli
- Além do ponto abordado na resposta da questão 3, desde o final de agosto, com a promulgação da lei nº 12.470, as pessoas com deficiência que participam de programas de aprendizagem não são mais excluídos do recebimento do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e podem acumular esse auxílio com o salário recebido até o final do período de formação profissional. Trata-se de um estímulo adicional também para as empresas, pois muitas Superintendências Regionais do Trabalho, como a de São Paulo, consideram a vaga preenchida por aprendiz deficiente válida para atendimento das duas cotas obrigatórias por lei. O CIEE oferece dois programas específicos – Pessoas com Deficiência e Aprendiz Legal – tanto para auxiliar jovens interessados em ingressar no mercado de trabalho, quanto para colaborar com empresas dispostas a desenvolver programas de capacitação de futuros profissionais com deficiência com vistas à efetivação no prazo de até dois anos.

Exper - Quais os recursos que o CIEE utiliza para inserir as pessoas com deficiência no mercado de trabalho?
Luiz Gonzaga Bertelli
- O CIEE mantém desde 1999 o Programa CIEE para Pessoas com Deficiência, que já promoveu a contratação de 8 mil estudantes com deficiência mental ou física para estágio ou emprego efetivo em empresas que, mais do que cumprir a Lei das Cotas, abrem oportunidade de uma vida digna para jovens que, superando obstáculos, se capacitam para exercer uma atividade produtiva. Além disso, o CIEE também buscou, em parceria com a Fundação Roberto Marinho (FRM), ações para que pessoas com deficiência possam participar do Programa Aprendiz Legal, que agora conta com material didático voltado à formação para o trabalho de pessoas com deficiência visual e auditiva.
Trata-se de um audiobook, que contempla a capacitação teórica do Programa Aprendiz Legal para jovens com deficiência visual. Para os deficientes auditivos o programa utiliza vídeobook.

Exper - Nestes 47 anos de existência qual o maior objetivo do CIEE?
Luiz Gonzaga Bertelli -
A razão de ser do CIEE é a inclusão dos jovens no mercado de trabalho por meio de estágios. Em decorrência disso, podemos divisar alguns valores. Acima de tudo, está a valorização da educação em todos seus matizes, seja a formal dos bancos escolares, seja a adquirida no dia-a-dia da prática profissional e do esforço individual para o desenvolvimento pessoal. Em seguida, a crença na união de esforços para solucionar problemas que o governo já não pode resolver. E, por último, mas não menos importante, a certeza de que as ações de forte cunho de assistência social, como as que empreendemos, direta ou indiretamente, levarão ao desenvolvimento nacional sustentável, pois um país nada mais é do que o reflexo de sua gente.