Exper News - Entrevista

Entrevistada


Christina Carvalho Pinto

Exper - Fale de sua trajetória profissional?
Christina
- Comecei muito cedo, aos 18 anos, como trainee de redação numa agência muito conhecida na época: a P.A. Nascimento, do falecido Paulo Arthur Nascimento. Dali fui para a Thompson, depois, Salles-Rio, Salles- São Paulo (hoje Publicis), CBBA, McCann-Erickson, FCB, Norton (hoje também Publicis), Young & Rubicam e, desde 1996, fundei com meus sócios o Grupo Full Jazz, um grupo multidisciplinar no setor de comunicações. Esse é meramente o relato cronológico, que não agrega nada; apenas dá uma noção da diversidade de experiências e culturas empresariais que vivenciei em algumas décadas.
Agora, existem muitas formas de analisar uma trajetória. Do ponto de vista puramente profissional, muito jovem ainda me tornei Diretora de Criação (aos 25 anos, na CBBA) e, a partir disso, o mercado me abriu oportunidades cada vez maiores e mais desafiadoras. Como sou movida a desafios, acabei percorrendo em pouco tempo um longo caminho, que incluiu minha associação com os americanos no Grupo Young & Rubicam, que presidi por 7 anos, multiplicando sua atuação e resultados em todas as operações.
O Grupo Full Jazz é o precioso coroamento dessa trajetória, porque aqui está a síntese do mais importante: a minha trajetória enquanto ser humano, os frutos do meu aprendizado e a aplicação de toda a possível expansão da minha consciência em benefício das marcas que nosso Grupo atende, para benefício não apenas delas próprias, mas de todos os seus stakeholders, da sociedade como um todo e do Planeta.

Exper - Você foi a primeira mulher na América Latina a presidir um mega grupo multinacional, o Grupo Young & Rubicam, que liderou como sócia por 7 anos, qual foi o aprendizado desta grande experiência?
Christina
- O primeiro grande aprendizado foi o quanto nós, brasileiros, somos agraciados como filhos de uma cultura que, embora caótica e desorganizada, é incrivelmente criativa, alegre e empreendedora.
Existe uma grande magia na forma brasileira de fazer acontecer nos momentos mais difíceis. Nas grandes crises, em que meus colegas, líderes da corporação em outros países, ficavam totalmente travados, engolidos pela magnitude dos desafios e pouco positivos em relação a qualquer caminho novo, nossa equipe brasileira ousava criar e implementar soluções inesperadas. Tentava, acreditava, ia em frente, corrigia os erros de percurso e, com isso, saía do imobilismo. Isso tem muito a ver com a alma brasileira. Não valorizamos essa nossa capacidade de navegar no escuro, sem bússola, sem todo o conhecimento racional que nos traria segurança... e mesmo assim chegar a um novo patamar.
O segundo grande aprendizado foi o do difícil exercício do discernimento quando você está vivendo uma situação gloriosa. Cheguei a um Grupo Young & Rubicam deficitário, com clientes desertando, uni uma equipe de valorosos guerreiros e multiplicamos mais de dez vezes o tamanho do Grupo, utilizando todo o potencial, as ferramentas disponíveis e a sinceridade no relacionamento com nossos clientes. No entanto, num dado momento, percebi que meus sócios internacionais, os grandes líderes mundiais do Grupo (Alex Kroll, Peter Georgescu), homens de indiscutível brilho e integridade, estavam vendendo suas ações e se retirando. Senti um cheiro de impessoalidade no ar. Recebi dos novos pares solicitações de metas e procedimentos que entendi como inviáveis. Percebi que alma do Grupo estava se distanciando e duvidei da única coisa que poderia me fazer permanecer: a certeza de que meus valores pessoais estariam sendo vividos em cada gesto de minha atuação profissional. Esses são passos muito complexos, porque exigem abrir mão de muitos privilégios. Mas é dando passos corajosos que podemos atingir o estágio mais sofisticado do viver, que é o da Realização Plena e Consciente.

Exper - Em sua opinião, quais foram às mudanças de maior relevância que ocorreram no mundo dos negócios nos últimos anos e o que ainda esta por vir?
Christina
- É redundante dizer que estamos vivendo uma era de macrotransição: o fechamento de um mega ciclo simultaneamente à abertura de um outro. É visível, é sensível, foi anunciado e pré-desenhado por pensadores contemporâneos do nível de Ervin Lazlo, Hazel Henderson, Peter Senge, John Naisbitt, Leonardo Boff e tantos outros. O mundo dos negócios, espelho do mundo como um todo, passa exatamente por esse momento, que à primeira vista transmite a sensação de esquizofrenia: discursos que não batem com as práticas, líderes que pensam de um jeito em casa e se comportam do avesso no trabalho, pacotes atraentes que desnudam metas a ser cumpridas a qualquer preço (ainda que esse preço seja o abandono da ética, o mergulho no álcool e nas drogas, a depressão, o pânico, o abandono dos afetos e da família etc.). Parece terrível e, se olhado isoladamente, o é. Mas, dentro de grande parte desses seres humanos, nasce aqui e agora o desejo irreprimível de viver de uma outra maneira, compatível com as crenças mais profundas de cada um; um desenho capaz de nos fazer vencedores sem nos destruir. Para que isso seja possível, nascem novas formas de sonhar e pensar empresas e projetos de vida, o que implica numa imediata redefinição de muitos aspectos, a começar pela redefinição do sucesso. O modelo vigente confundiu qualidade de vida (escolha consciente para satisfazer demandas do universo interior) com padrão de vida (projeção imagética para o mundo exterior) e o resultado tem sido desastroso. A nova geração sabiamente questiona essa perversa confusão (na verdade a armadilha maior dos tempos de hoje) e busca o equilíbrio necessário para que a qualidade de vida possa existir. Pesquisas revelam que 43% dos jovens rejeitam a carreira corporativa e querem empreender. A nova empresa (ou Neoempresa, como sabiamente César Souza a denomina em seu último livro) entende que, para multiplicar suas chances de vida e perenidade, precisa contribuir para a Vida em todas as suas expressões. Isso muda essa visão esquizofrênica vigente e abre um gigantesco portal para o retorno à inteireza.

Exper - Quais são as principais responsabilidades, atribuições e desafios de ser uma das maiores lideranças planetárias na criação de novas visões para marcas e para o universo da mídia, aliando o poder das ideias ao poder da consciência?
Christina
- A responsabilidade – não a minha, mas a de todo líder – é manter clara coerência entre o que eu sinto, penso e realizo. No caso específico da mídia, a inundação de conteúdos voltados ao binômio T.V (Tragédia e Vulgaridade) provoca um grande e humano clamor por novas formas de entreter, informar e encantar, que contribuam para a expansão do conhecimento, do entendimento e, claro, da diversão, numa direção mais luminosa e menos sombria. O desafio é esse. E as mentes criativas adoram desafios, não é verdade?

Exper - Com a pressão por resultados ficando maior, como podemos enfrentar e superar os dilemas éticos que encontramos a todo o momento?
Christina
- Redefinindo o que entendemos por resultados. Se resultado se restringe a multiplicar o dinheiro no bolso do acionista e os bônus dos top-executives, não há qualquer possibilidade de ética. Se o resultado mensura um equilíbrio entre a contribuição para o bolso dos acionistas (e dos executivos) com a contribuição para todas as formas de Vida impactadas pela atuação da empresa, aí podemos falar de ética corporativa.

Exper - O principal objetivo de uma empresa é e sempre será o lucro, pois sem resultados nenhuma empresa pode exercer suas responsabilidades as quais, em nossa opinião, envolvem a responsabilidade ética, social e ambiental, e elas devem ser inseparáveis e até indistinguíveis, sendo que o exercício dessas responsabilidades fará a empresa trilhar o caminho da tão sonhada sustentabilidade. A sustentabilidade nos negócios é possível ou se trata apenas uma utopia empresarial?
Christina
- Sustentabilidade, essa palavra tão banalizada, não é a coisa em si, mas a consequência da coisa! O que é então a coisa? É a apreciação pela Vida. Sustentabilidade nada mais é do que a consequência de uma sincera apreciação pela Vida: a sua, a minha, a de todos, a do Todo. Quando essa apreciação é legítima, as estratégias corporativas passam a girar em torno de como progredir e se perpetuar fazendo parte, positivamente, dessa fascinante malha da Vida. Isso é totalmente possível, mas requer mudança de paradigma. Mais: é urgente e não tem volta.

Exper - Além desta belíssima trajetória profissional, você é presidente do Grupo Full Jazz, nos fale um pouco da proposta do grupo para nossos leitores?
Christina
- O Grupo Full Jazz entende que as visões hoje vigentes no setor das comunicações estão, em grande parte, empoeiradas. Existe toda uma nova sociedade clamando por novos papéis das marcas, de seus interlocutores e da própria comunicação. Acreditamos que o grande desafio criativo destes novos tempos é justamente potencializar essa soma do poder das ideias com o poder da consciência. Ao concretizar essa visão, abrem-se imensos horizontes para as marcas que nos confiam seus destinos. Somos uma butique de porte médio, atuando em todas as disciplinas da comunicação 360º: branding, propaganda, eventos, promoções, endomarketing, estratégias digitais, redes sociais, canais de convergência em mobile, todo o universo das disciplinas fora-da-caixa e uma consultoria pioneira em Sustentabilidade, a The Key, que atua conosco de forma sinérgica, mas independente. A The Key vem realizando projetos de alta eficácia para muitas corporações que são clientes de outras agências de propaganda. Não há qualquer conflito nesse caso.

Exper - Como você concilia a vida pessoal e profissional?
Christina
- Essa conciliação nem sempre se torna possível. Há inúmeras situações em que um dos lados tem que ceder e o que procurei fazer foi justamente evitar que o lado pessoal fosse sempre o que cedia. De novo, esse tema passa pela redefinição pessoal de sucesso e realização. Eu sempre gostei de trabalhar, mas tenho paixão pela minha família, pelos meus afetos, pelos momentos de silêncio, pela Natureza, da qual somos obviamente parte intrínseca. O equilíbrio implica em escolhas; as escolham implicam em renúncias e na humildade de conviver diariamente com a imperfeição. Mas a maturidade me mostra que o mais importante a conciliar não é o binômio vida pessoal e vida profissional: são os movimentos da nossa mente, que quer tudo ao mesmo tempo. No plano sutil, isso é possível. No plano físico, não. Há que perguntar todos os dias o que de fato queremos fazer com nossa curta passagem pela Terra.

Exper - Muitas mulheres neste exato momento da entrevista devem estar comentando. “Ela está sempre está muito bem vestida e em forma”. Qual o segredo dos seus figurinos e o que você faz para manter a boa forma e a saúde?
Christina
- Não ligo para grifes e rejeito a ideia de ser “assinada” por alguém. Posso usar um Cavalli (que aprecio pela criatividade) junto com a bolsa produzida por moradoras de rua... ou a roupinha da loja da esquina que me caiu bem. Ando cada dia mais simples e preciso cada vez de menos. Há décadas pratico tai chi chuan, a ancestral arte marcial chinesa. Me formei em música: piano e dança. Adoro dançar! Sou também muito andarilha: caminho quase todos os dias e faço ginástica sempre que posso. Minha alimentação é a mais simples e básica possível: muita fruta, verduras, legumes e grãos integrais. Peixe de vez em quando, mas na verdade minha alma é vegetariana. Não como carne vermelha nem aves. Adoro uma boa taça de vinho. Acima de tudo, amo a Vida e não me preocupo com frivolidades.

Exper - Quais os planos para o futuro?
Christina
- Morar no campo, continuar minha missão no universo das comunicações, escrever meus livros, viajar mais com Luiz e nossa família, ter mais tempo para não fazer nada... e brincar muito mais com meu neto! O plano maior, nos bastidores de todos os planos, é Evoluir. Vim aqui para isso.