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Gestão Empresarial

 


A gestão acelerada de João Doria

por Luís Artur Nogueira

Com o respaldo de mais de três milhões de votos, o empresário João Doria Jr. vai administrar o orçamento de R$ 54,7 bilhões da maior cidade da América Latina. Conheça os seus planos para atrair investidores e saiba como ele pretende implementar na Prefeitura de São Paulo algumas práticas consagradas no setor privado

Às quatro da tarde da quarta-feira 5, o prefeito eleito João Doria Jr. entrou no estúdio número seis do SBT ao lado do apresentador Carlos Roberto Massa, o Ratinho. Com um estilo casual (camisa, calça jeans e sapatênis), adotado durante toda a campanha paulistana, o tucano foi ovacionado por uma plateia de 130 mulheres das classes C e D, que formam a maior parcela da audiência da emissora de Silvio Santos. Depois de meia hora de entrevista, já com as câmeras desligadas, caiu nos braços do povo, cantou o jingle “João trabalhador” e tirou dezenas de fotos com artistas e funcionários nos camarins, fazendo com os dedos o símbolo “<” da campanha “Acelera SP”.

Após a gravação, a DINHEIRO acompanhou Doria Jr. no percurso entre o km 18 da rodovia Anhanguera, em Osasco, onde fica o SBT, até a Rede Record, no bairro da Barra Funda, em São Paulo, para mais uma participação televisiva. Nesse trajeto de 25 minutos, o prefeito eleito em 1º turno com pouco mais de três milhões de votos falou sobre privatizações, concessões, finanças públicas e um novo modelo de gestão pública que terá práticas consagradas no setor privado, como a meritocracia. “Ter metas, cumpri-las, ter velocidade na gestão, comprometimento com serviços de qualidade, transparência e pensar grande”, afirma o tucano, 58 anos, que disputou pela primeira vez uma eleição. “A cidade pensa muito pequeno.”

Fundador do Grupo de Líderes Empresariais (LIDE), uma entidade privada que promove eventos com representantes do setor produtivo e políticos, Doria Jr. segue uma trilha ainda rara de gestores privados que buscam cargos eletivos na administração pública. O tucano se identifica com a trajetória do magnata americano Michael Bloomberg, dono de uma empresa de comunicação que carrega o seu sobrenome. Detentor de uma fortuna estimada em US$ 44 bilhões pela revista Forbes, Bloomberg foi prefeito de Nova York por três mandatos, na década passada.

“Ele é uma referência, um empresário que não tinha nenhuma vida orgânica partidária, disputou as eleições, ganhou, foi reeleito, e saiu consagrado. Foi um transformador”, diz Doria Jr.. Na terça-feira 4, ao destacar sua acachapante vitória, o jornal francês Le Monde o classificou de “o Michael Bloomberg brasileiro”. Outro exemplo a ser seguido, segundo o próprio prefeito eleito de São Paulo, é o de Mauricio Macri, filho de empresário que se tornou presidente da Argentina após um mandato bem sucedido e com ideias liberais na prefeitura de Buenos Aires.

“Estou convencido de que abrir os braços ao capital privado é o melhor caminho em qualquer administração pública”, diz o argentino Carlos Magnarelli, CEO do Grupo Liberty no Brasil. “Macri fez isso e gerou um choque de confiança.” Além do enorme respaldo das urnas, Doria Jr. terá o apoio de uma base política composta por 13 partidos. A aliança teve como principal mentor o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que encarou brigas internas no PSDB e bancou o nome do seu afilhado. A aposta, que inicialmente parecia arriscada, fortaleceu o capital político de Alckmin, que se torna um dos nomes mais fortes para a eleição presidencial em 2018.

Além disso, reforçou um sentimento nacional antipetista. Com 25 anos de experiência em cargos públicos, o vereador eleito Daniel Annemberg, do PSDB, vai ajudar o novo prefeito a desburocratrizar a máquina pública, tornando-a mais leve e eficiente. O benchmark – palavra inglesa que no mundo dos negócios significa as melhores práticas existentes – é o Poupatempo, um dos programas com maior aprovação da gestão paulista, que oferece vários serviços públicos de forma rápida num mesmo espaço físico. Nas palavras de Doria Jr., a sua gestão terá como marca esse “padrão Poupatempo” (leia entrevista ao final da reportagem).

“Nós implantamos no Detran esse padrão Poupatempo de atendimento, que simplifica procedimentos, tem acesso virtual, gerencia filas e é rápido”, diz Annemberg. “Esse padrão de qualidade também pode existir em outros serviços municipais.” Na avaliação do economista Marcos Lisboa, presidente do Insper, a sociedade ganha quando o governante tem a humildade de replicar boas práticas, independentemente de quem as criou. “Na educação, por exemplo, há bons trabalhos País afora, mas a gente não copia o que dá certo”, diz Lisboa, que foi secretário de política econômica do Ministério da Fazenda.

O coro das boas práticas gerenciais é engrossado pelo coordenador da campanha municipal do PSDB, Julio Semeghini, apontado por correligionários como um nome certo na administração João Doria. “É importante introduzir a meritocracia no setor público”, diz Semeghini, que, dentre outros cargos, foi secretário de Gestão Pública do Estado de São Paulo, em 2011. “Vamos envolver a iniciativa privada e a sociedade civil organizada na discussão dos problemas e na atração dos investimentos.” A ideia conta com o apoio de empresários que assessoram o prefeito eleito, como Juan Quirós, presidente da Investe São Paulo, e Julio Serson, dono da cadeia de hotéis Vila Rica.

Embora ainda seja um tabu na esfera pública, o debate sobre a meritocracia é bem-vindo. “Aonde não existe reconhecimento nem punição, as pessoas tendem a se acomodar”, diz Alketa Peci, professora da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas. “Isso é verdade no setor público e no privado.” Com a economia dando lentos passos para sair da recessão, a nova administração paulistana precisa do aporte de recursos privados para dar fôlego ao caixa.

Para isso, haverá um programa de privatizações com diversas oportunidades de investimentos. O autódromo de Interlagos e o Complexo Anhembi, por exemplo, podem render R$ 7 bilhões aos cofres públicos. Além disso, a prefeitura vai promover a concessão do estádio do Pacaembu, de ciclovias, cemitérios e parques, reduzindo seus gastos com manutenção dessas áreas. “Vamos usar a capilaridade do LIDE para motivar as empresas que querem investir”, diz Doria Jr.. “Para atrair investimentos, vamos aproveitar o nosso bom relacionamento com o mundo empresarial no Brasil e no exterior.”

NOVO MODELO NACIONAL A postura pró-mercado do novo prefeito de São Paulo se encaixa perfeitamente com o plano do governo Michel Temer, que já colocou 34 projetos de infraestrutura à disposição do mercado. “Investimento privado é a única maneira de gerar um crescimento sustentável, de longo prazo”, diz Barry Engels, presidente para América Latina da GM, que elogia a mudança de pensamento no Brasil. A falta de recursos é a realidade para a maioria dos 5.568 municípios brasileiros. A situação é tão crítica que levou prefeitos a tentar provar que possuem um número maior de moradores para aumentar as receitas que são repassadas pela União (leia reportagem aqui).

Nas grandes metrópoles, no entanto, o caminho mais viável para destravar obras e gerar empregos é atrair o setor privado. “A cada momento em que a finança pública fica fragilizada, a privatização aparece como uma necessidade inexorável”, diz Venilton Tadini, presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). “É uma sinalização inequívoca de uma mudança de orientação no País após uma anarquia muito grande na estrutura de governança do Estado nos últimos 15 anos.” Para o poderoso cargo de secretário das Finanças, o prefeito eleito Doria Jr. procura um técnico com experiência em gestão pública, que terá a missão de “melhorar a arrecadação sem aumento de impostos, cobrando os devedores”, nas palavras do próprio prefeito eleito.

“A Prefeitura tem quase R$ 100 bilhões de recebíveis que ainda não foram pagos”, afirma o tucano. “Se resgatarmos 20% desse volume, já será uma injeção importante de recursos.” Obstinado, metódico e comunicativo, Doria Jr. está convencido de que é possível transferir a eficiência do setor privado para a enferrujada máquina pública. “Não existe herói solitário. Existem ações coletivas”, afirma. A esperança é que esse modelo de gestão seja replicado em outras regiões. A quase 600 quilômetros da capital paulista, os moradores do município catarinense de Jaraguá do Sul, sede de empresas como a WEG e a Malwee, terão uma experiência semelhante nos próximos quatro anos. Neófito na política, o empresário do setor têxtil Antídio Lunelli (PMDB), dono de um patrimônio declarado de R$ 288 milhões (Doria Jr. declarou ter R$ 180 milhões), foi eleito com 44% dos votos.

“Vamos fazer gestão, fechar as torneiras, utilizar tecnologia e colocar máquina dentro do trilho, desburocratizando e simplificando”, diz Lunelli. A exemplo do que ocorreu com Bloomberg e Macri, a chegada de um empresário ao poder gera um choque de expectativas positivas. “O setor privado pode ensinar tudo para o setor público”, diz Edmundo Klotz, presidente da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia). “O governo, na maioria dos casos, não sabe ser gestor.” A partir de 1º de janeiro de 2017, quando estiver no comando da maior cidade da América Latina, o empresário João Doria Jr. terá a oportunidade de mudar essa imagem dos políticos. Detalhe: ele decidiu não usar gravata na Prefeitura.