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Jovem Empreendedor


Jovens investem no campo

por Raquel Freitas

Em Pernambuco, dos 40 mil agricultores familiares, 15% são jovens, de acordo com dados do IPA.

Todo dia Késia Azevedo, 30 anos, faz tudo sempre igual. Pouco depois de o sol acordar, ela levanta, solta as galinhas no quintal e coloca água e ração. O silêncio da casa simples em Quipapá, na Zona da Mata do Estado, é roubado pelos cacarejos das 300 aves criadas por ela. É ali, a 180 quilômetros de Recife e numa área de um hectare, que a zootecnista resolveu ser contraste e seguir um rumo diferente de seus familiares, que se dedicam ao funcionalismo público.

"No começo eles não entendiam, mas depois me apoiaram", diz, relembrando o apoio financeiro de R$ 5 mil dado pelos pais para montar o pequeno negócio.

A vida no campo, reforça, é tranquila e garante o sustento dos sonhos. Ela não está sozinha, pois esse tem sido o caminho feito por muitos jovens do País. Em Pernambuco, dos 40 mil agricultores familiares, 15% são jovens, de acordo com Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA).

"Essa foi uma forma que encontrei para dar continuidade ao meu projeto e de me manter. A escolha pela avicultura, amadurecida durante os cinco anos no curso de Zootecnia, aconteceu pelo espaço que tenho em casa, já que não havia possibilidade de comprar outra propriedade", explica.

Dos R$ 2 mil de rendimentos mensais, parte é retirada para investir no pequeno negócio e parte vai para a poupança. A nova empreendedora pensa em expandir o mercado de vendas de ovos, galinhas vivas e abatidas. "Como faço para vender? Bato na porta das pessoas e ofereço", afirma.

A facilidade com a comercialização não veio à toa. Está no sangue, garante. É que o avô de Késia foi produtor de leite da região. Assim como o avô na época, a jovem se dedica quase que exclusivamente ao comércio. "Nas horas vagas, estudo", acrescenta.

Os anos de trabalho renderam um plantel volumoso de negócios. Por mês, 300 galinhas são abatidas e 900 ovos são vendidos para a vizinhança local. "Que tenta barganhar ao máximo o valor dos produtos em função da crise", se diverte ao comentar que, de fato, seus produtos são mais caros que os do mercado tradicional. "É que a minha produção é mais artesanal, e demora um pouco para ganhar produtividade", frisa.

Késia faz parte de um universo cada vez maior de jovens que não querem sair de onde moram para trabalhar. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com informações do último censo, mostram a população de jovens entre 23 e 29 anos que migrou para outra região em busca de emprego não chega a 15% da população que se encontrava nessa faixa etária.

Ressalta-se também que o jovem não migrante apresenta maior escolaridade do que aqueles que optaram por migrar para outra cidade.

O produtor de bananas do mesmo município, Cristiano de Melo, 33 anos, é exemplo disso. Preferiu ficar no campo, terminar os estudos e se capacitar. Herdeiro da produção rural, Melo é filho de agricultores com primeiro grau completo.

Após a morte dos pais, ele assumiu os 111 hectares de terra e deu continuidade ao que os pais levaram décadas para erguer. Questionado sobre o que mudou entre as duas épocas, o jovem empreendedor foi taxativo: "a insistência da seca".

De tão quente e seca, plantar na região exige expertise e cuidados para evitar que mais hectares de terra sejam dizimados. "Foi aí que precisei me capacitar para sobreviver. Atualmente, uso o sistema de aspersão para irrigar as lavouras. Isso me permite economizar água", explica, destacando que tenta conseguir financiamento bancário para implantar microaspersores em suas terras. Este ponto, de acordo com ele, é um dos maiores entraves para um jovem que deseja empreender.

"Sentimos a dificuldade de negociar com as instituições. Acredito ser diferente para os grandes produtores", pontua.

Continuar apostando no próprio no negócio é algo bastante defendido pelos especialistas, uma vez que ‘eficientiza’ o processo produtivo e aumenta as receitas do pequeno empresário.

Se Cristiano conseguir o financiamento de R$ 10 mil, a economia da água pode chegar a 80% em uma época em que o recurso equivale a ouro no Nordeste.