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Liderança

 


País vive ausência de líderes, diz especialista

por Eliane Oliveira

Problema é cultural, mas piorou após Lava-Jato

No Brasil desde 1993,atuando profissionalmente no meio acadêmico e como diretor de RH de empresas, o italiano Marco Dalpozzo afirma que o país vive uma escassez de líderes nos meios político e empresarial, problema que vai perdurar durante logo período e que teve como principal causa a operação Lava-Jato. Segundo ele, neste momento, após a operação Lava-Jato ter varrido do tabuleiro diversas lideranças em várias esferas de decisão dentro das empresas, o grande desafio é encontrar líderes profissionais que possam preencher estas posições vazias e atuar em um cenário de retomada do crescimento.

Como está o Brasil em termos de lideranças empresariais?

MARCO DALPOZZO - O Brasil vive períodos econômicos cíclicos e há uma escassez de líderes preparados e qualificados nas organizações para lidar com essas variações. Assim como também são graves e, de certa forma, endêmicos os problemas relacionados à educação e ao desenvolvimento humano. No momento, após a operação Lava-Jato ter varrido do tabuleiro diversas lideranças, em várias esferas de decisão dentro das empresas, o grande desafio é encontrar líderes profissionais que possam preencher estas posições vazias e atuar em um cenário de retomada do crescimento. Há uma demanda de líderes e profissionais qualificados muito superior à oferta.

Qual é origem desta carência?

É uma questão cultural. Temos grande preocupação com o passado e o presente, mas pouco foco no planejamento estratégico e na visão de futuro, com uma agenda que permita a realização de objetivos definidos. O Brasil precisa de uma visão de longo prazo. Que país deseja se tornar? Quais vocações industriais em um mercado totalmente global quer desenvolver? E, para alcançar estes objetivos, quantos e que tipo de lideranças e profissionais vai precisar? Apesar da crise pontual atual, o Brasil é um país emergente, em crescimento. Precisa, portanto, de gente e líderes qualificados e preparados para pavimentar este caminho. Identificar potenciais líderes, desenvolvê-los, prepará-los, oferecer oportunidades adequadas, requer tempo, dedicação e priorização estratégica em uma organização. Não vejo isso acontecendo ainda nas organizações do país. Se não temos lideres adequados e na quantidade requerida, o risco de se falhar é elevado. Nosso desafio é de longo prazo. É preciso mudar a visão e a cultura de curto prazo.

Como mudar esta cultura e a falta de interesse de empresas e organizações públicas em investir em formação de lideranças?

Primeiramente, planejando o futuro e investindo mais. É preciso construir um número adequado de centros de formação de liderança, priorizar o planejamento sucessório empresarial, investir na preparação de profissionais de RH capazes de identificar e formar os lideres potenciais. Reforçamos a ideia de que líderes são natos e reduzimos a oportunidade e investimentos na formação e desenvolvimento de lideranças nas organizações. Quanto mais a fatia de PIB de um pais for composta pela área de serviços (sejam eles públicos ou privados)maior será a necessidade de gente qualificada e líderes. Hoje a tecnologia substitui os seres humanos nas fábricas e nas atividades manuais, mas em serviços, o capital humano representa um ou o maior investimento de uma empresa/organização. A agenda de RH Estratégico se tornou essencial.

Uma de suas propostas é que se tente, inicialmente, trazer de volta profissionais que deixaram o Brasil para assumir postos em empresas do exterior. O país está mergulhado em recessão. Como atrair estes especialistas com este cenário atual?

Precisamos de líderes que reconheçam a globalização. O mundo é único. Liderar nesta novo realidade é completamente diferente do que no século XX. Quem está construindo sua carreira reconhecendo o ambiente global representa um capital valioso em um momento de eventual retomada do crescimento do pais. Brasileiro é adaptável - aprende com a experiência própria e dos outros - tolerante e mais preparado do que muitos outros a lidar com a diversidade. Temos muitos brasileiros em escolas de renome internacional e muitos executivos fazendo carreira no exterior. Como atraí-los? Primeiramente convidando-os a fazer parte da construção de seu país em uma empresa brasileira. “Jogar” na seleção nacional é um orgulho e um sonho de qualquer jogador. A crise no Brasil exige, para seu enfrentamento líderes e profissionais adequados. Podemos deixar de investir em qualquer coisa, mas não em gente e líderes. Precisamos desenvolver uma ação de atração e desenvolvimento de talentos, chamá-los e atraí-los para construir o país dos próprios filhos. O Brasil não pode perder a esperança e otimismo sobre o futuro.

O senhor enfatiza que a solução não virá em curto prazo. O que podemos esperar?

Muito Trabalho. A alta gerência e os profissionais especialistas de RH devem focar no tema de gente e liderança como prioridade número um, investir em centros acadêmicos de excelências: a Silicon Valley tem Stanford and Berkley Universities, Boston tem Harvard e MIT etc. Precisamos de centros acadêmicos de alta qualidade e voltados à formação de líderes.Temos poucos centros de excelência internacional no Brasil. Nós, profissionais de RH, usamos a identificação de talentos como a somatória de experiência e potencial, além obviamente das características individuais originais. Como um país ainda jovem e com demanda de líderes maior do que a oferta, a falta de experiência não deve surgir como um empecilho; é preciso investir e promover “potenciais”, dar coaching (orientação profissional) e suporte emocional. As empresas precisam assumir riscos.