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Mercado de tatuagem vai além da arte e cresce durante a crise

por Denise Kanda - Brasil Econômico

Ainda não existe um censo brasileiro para apontar quantas pessoas tem tatuagem no País. Mas estudos identificam que o setor teve crescimento de 24,1% no número de estúdios regularizados, sendo esse índice apurado entre janeiro de 2016 e de 2017. Não seriam abertos - ou regularizados - tantos negócios neste nicho em tempos de crise se não houvesse uma boa procura por esse serviço, não é mesmo?

Ainda de acordo com o Sebrae, ao se considerar apenas Microempreendedores Individuais (MEI), o aumento é de 24,3% a mais do que o valor registrado em 1º de janeiro de 2016, quando passou de 9.151 para 11.380 negócios de tattoo e body piercing no País. E essa melhora no mercado refletiu no negócio de Renan Pires, que em março deste ano mudou da pequena sala de São Bernardo do Campo – Grande São Paulo, para um estúdio na capital paulista.

Antes, o empresário tatuava, em média, uma ou duas vezes por semana. Atualmente a atividade acontece praticamente todos os dias da semana. O dono do 'Renan Pires Artwork Tattoo' avalia que o mercado de tatuagem evoluiu muito nos últimos três anos por conta de diversos fatores, que vão desde a melhora da importação de produtos, até o número de empresas que desenvolvem materiais. Outro ponto ressaltado pelo empreendedor foi a regulamentação deste mercado e o controle obrigatório da qualidade de materiais – tintas, agulhas, etc. – pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O público

Em 2013 a revista Super Interessante realizou uma pesquisa com enfoque no perfil do tatuado. O estudo apurou que as mulheres representam 59,9% das pessoas com tatuagem no País. Em relação à idade, chegou-se à conclusão que as pessoas entre 19 e 25 anos correspondem a 48,2% dos tatuados, praticamente metade. 

O empresário observa também que a divulgação, sendo a forma como o estúdio se lança no mercado, também é fator determinante para o público que vai frequentar cada estabelecimento. Em seu caso, o perfil dos clientes varia de acordo com o estilo da arte que a pessoa busca.

Embora o aumento de estúdios seja positivo para contribuir na quebra de estigmas em relação à tatuagem, Pires lamenta o fato de que muitas pessoas têm entrado na área pelo dinheiro e não pela arte em si. “Cerca de 60% da procura pelo estúdio é de coberturas de trabalhos mal feitos ou reformas, o que indica que esse aumento é só estatístico, sem qualidade ou segurança alguma”, declara.

Mercado

Atuando como profissional na área desde 2015, Renan Pires percebeu nos últimos anos a busca dos estabelecimentos em não apenas oferecer uma sessão de tatuagem, mas também experiências diferentes, como estúdios em ambientes estéreis dentro de ônibus ou trailers, além de espaços com entretenimento para o cliente e seus acompanhantes.

E um desses locais é o estúdio da Tomi Maehigashi, Tomi Tattoo & Babershop, que em janeiro deste ano passou a oferecer serviços de barbearia, body piercing, cervejaria e mesa de sinuca. “Além de proporcionar uma espera mais agradável ao cliente, a inserção desses serviços é uma resposta ao mercado que cresceu, e que de certa forma te obriga a crescer também, porque se não você é deixada para trás”, relata a empresária. Sobre o faturamento, Tomi diz que a ampliação do estúdio e a oferta de outros serviços agregou cerca de 25% na receita do negócio.

Já Pires afirmou que explora as possibilidades do mercado de outra forma. A sua formação em design gráfico e a atuação na área o permitiu ministrar um curso de desenho a partir de 2010, e também dar aulas de tatuagem, com duração de dois meses em seu estúdio. 

Tendências

Embora o empresário note em seu cotidiano que boa parte da procura pelo seu trabalho seja para ajustar tatuagens de clientes insatisfeitos com outros estúdios,  Piris é otimista sobre o futuro da profissão. Ele considera que a tendências é termos cada vez mais artistas tatuadores do que os “tatueiros”, como ele denomina quem apenas compra uma máquina e começa a trabalhar sem muitas noções de desenho, técnica, anatomia, etc.  

Em relação aos estilos, Pires considera que novas técnicas de criação como sketch, sketch aquarelado, realismo (3D), com QR Core vão aparecer cada vez mais na profissão, já que o mercado abrigará cada vez mais artistas, com mentes mirabolantes.

Reflexão

Quando questionado se em algum momento teve a liberdade de criação afetada pelo fato da tatuagem ser algo comercial e voltada apenas aos negócios, Renan Pires diz que sempre procura deixar a sua marca de artista nos trabalhos. Como profissional, ele reconhece que é dever de todo tatuador direcionar o seu cliente a fazer uma arte que terá maior visibilidade e durabilidade, e não apenas fazer por fazer as tais das tatuagens comerciais. “O que eu vejo é que a própria visão das pessoas está mudando em relação à tattoo como um todo, está havendo queda da procura pelas tatuagens comerciais, já que após alguns anos perderão a qualidade ou precisarão ser reformadas ou cobertas”, relata.